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Unitel na Bolsa: entre o Sucesso e a Incerteza

Unitel na Bolsa: entre o Sucesso e a Incerteza

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A entrada da Unitel na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), em 29 de Julho de 2026, constituiu um dos acontecimentos mais importantes da história recente do mercado de capitais angolano, e abriu caminho a outras operações importantes de privatização parcial que venham a ocorrer no futuro, nomeadamente sobre empresas fundamentais, como a Sonangol ou a Endiama.


Por isso mesmo, é um tema que deve ser abundantemente escalpelizado e não ficar esquecido nas nuvens da propaganda simplista que tantas vezes forma a opinião em Angola.


Quanto à privatização de 15% do capital da Unitel, o primeiro ponto a referir é o elevado interesse que o mercado expressou: na oferta pública de venda (OPV) inicial, registou-se uma procura superior à quantidade de acções disponibilizadas.


Mas, exactamente, neste ponto determinante reside a primeira opacidade e perplexidade. Não existe uma lista com os nomes dos novos accionistas. Na verdade, o público, mesmo o público informado, não sabe quem ficou com as acções da Unitel.


É verdade que, em regra, nas bolsas mundiais, apenas acima de determinadas percentagens se divulga o nome dos proprietários (entre 2% a 5%, dependendo do país). Em Angola, essa obrigação existe a partir da detenção de 5% do capital social, nos termos do artigo 119.º do Código dos Valores Mobiliários.


Quer isto dizer que ninguém detém, de forma directa ou indirecta, 5% da Unitel? Pode ser que sim, pode ser que não. Fontes do Maka Angola afirmam que um dos expedientes utilizados para a aquisição das acções consiste na disponibilização de fundos, por parte dos principais interessados em obter posições de referência, aos funcionários, os quais podem comprar participações sem accionar os mecanismos de informação de participação qualificada (i.e., obrigação de comunicar posições acima de 5%). Só depois dessa etapa inicial é que os verdadeiros beneficiários procedem à consolidação das acções, apropriando‑se, de forma discreta, da posição societária que pretendiam assegurar. Muito possivelmente, esse esquema terá sido um dos factores que contribuíram para a subida inicial do preço, desencadeada pelos pré-acordos de venda.


Mesmo não sendo exigida por lei, teria feito sentido que no resultado da OPV da Unitel fosse incluída a divulgação do nome dos novos accionistas, até para evitar mecanismos de fraude à lei e de engenharias financeiras obscuras.


Em operações desta natureza, que envolvem uma empresa com um histórico societário conturbado (nacionalizações e processos judiciais contra Isabel dos Santos e Leopoldino do Nascimento) e activos cujo valor real permanece objecto de debate (a participação de 36,9% no Banco de Fomento Angola [BFA] está registada por 29,2 mil milhões de kwanzas, mas vale cerca de 600 mil milhões, deixando fora das contas um diferencial de 570 mil milhões), a transparência formal não esgota a necessidade de confiança institucional.


Uma lista nominal teria reforçado a credibilidade do processo, transmitindo aos agentes económicos a ideia de que o Estado não apenas cumpre a lei, mas se dispõe a ir além dela quando está em causa a solidez das instituições e a qualidade da governação económica.


A segunda questão que se coloca refere-se ao facto de o lançamento da operação e a negociação em bolsa terem sido mantidos, sem alteração de datas, apesar de, ao mesmo tempo, a empresa ter sido sujeita a um “apagão” (em que o sistema cibernético foi abaixo), ainda hoje não esclarecido.


Em circunstâncias normais, um evento desta natureza poderia afectar significativamente a confiança dos investidores, sobretudo tratando-se de uma empresa tecnológica e de telecomunicações, cuja actividade depende directamente da estabilidade dos seus sistemas.


A prudência aconselharia a um período de espera para se perceber o que estava em causa e o mercado ter a informação adequada para realizar as suas transacções de modo livre e informado. Havia o risco de a negociação começar com uma queda abrupta, o que não aconteceu, mas ainda há o risco de, no curto prazo, surgirem informações e dúvidas sobre o “apagão” que influenciem negativamente o preço, levando os investidores a demandar o Estado por prejuízos. O assunto ainda não está fechado.


O preço unitário de colocação das acções foi fixado em 40 040 kwanzas, no limite superior da faixa de preços definida para a operação.


Logo no primeiro dia de negociação, as acções da Unitel atingiram aproximadamente 50 000 kwanzas, o que representa uma valorização de 24,88% face ao preço da OPV.


De facto, esta subida inicial foi surpreendente. Talvez seja justificada por algum esforço institucional concertado para segurar o preço, pelo facto de a procura inicial ter superado largamente a oferta e ter criado um efeito de escassez, levando muitos investidores que inicialmente não conseguiram adquirir acções a procurá-las já no mercado secundário e, eventualmente, ao cumprimento de pré-acordos de venda especulativos.


No entanto, a euforia inicial não durou muito tempo. No segundo dia de negociação, as acções registaram uma correcção acentuada, encerrando perto dos 41 000 kwanzas, uma queda de cerca de 13% relativamente à sessão anterior.


Esta descida pode ser interpretada como um fenómeno normal de realização de lucros. Muitos investidores que adquiriram títulos a 40 040 kwanzas aproveitaram a valorização do primeiro dia para vender as suas posições e garantir ganhos rápidos.


Nos dias seguintes, a tendência descendente prolongou-se. Durante a primeira semana de Agosto, a acção chegou a negociar perto dos 30 500 kwanzas, um valor significativamente inferior ao preço inicial, desvalorizando a companhia em mais de 20%.


Poucos dias depois, as acções começaram a recuperar gradualmente. Em meados de Agosto, a cotação aproximava-se novamente dos 40 000 kwanzas, regressando à zona do preço definido.


Esta evolução inicial da cotação da Unitel após a OPV merece uma atenção especial, pois revela um padrão de volatilidade estranho.


O preço de colocação foi fixado em 40 040 kwanzas, no limite superior da faixa definida, sinalizando confiança institucional e uma procura robusta. No entanto, a valorização imediata para cerca de 50 000 kwanzas no primeiro dia — um ganho de quase 25% — excede o que seria expectável num mercado maduro e pode indicar a presença de factores não inteiramente orgânicos.


A descida abrupta no segundo dia, com a cotação a recuar para perto de 41 000 kwanzas, traduz um movimento clássico de realização de ganhos, mas também evidencia que a subida inicial não assentava em fundamentos sólidos.


A oscilação acentuada entre sessões consecutivas — primeiro uma valorização de 25%, depois uma queda de 13% — é um sinal claro de volatilidade excessiva, sobretudo para uma empresa recém‑cotada e com uma base accionista composta maioritariamente por pequenos investidores, tanto quanto se sabe…


Nos dias seguintes, uma desvalorização intensa, superior a 20% face ao preço da OPV.


Movimentos desta grandeza, num intervalo tão curto, não são típicos de empresas com estruturas de governação estáveis, informação financeira consolidada e expectativas de mercado bem ancoradas.


Pelo contrário, revelam incerteza quanto ao valor intrínseco da empresa, fragilidade na formação de preços e uma sensibilidade elevada a fluxos especulativos.


A recuperação gradual em meados de Agosto, com a cotação a regressar à zona dos 40 000 kwanzas, não invalida esta leitura.


A oscilação entre 30 500 e 50 000 kwanzas num período de poucas semanas demonstra que o mercado ainda não encontrou um ponto de equilíbrio para a Unitel.


Esta amplitude de variação — superior a 60% entre máximos e mínimos — é, em termos técnicos, um indicador de alta volatilidade, que tende a penalizar a percepção de estabilidade da empresa, aumenta o risco para investidores de retalho e torna o título vulnerável a movimentos coordenados de curto prazo.


Em suma, há que estar atento. A grandeza e a rapidez das variações sugerem que a Unitel enfrenta um processo de descoberta de preço marcado por uma manifesta incerteza estrutural.


Esta volatilidade é um reflexo das ambiguidades jurídicas, contabilísticas e operacionais que continuam a envolver a empresa, e que o mercado, de forma visível, ainda não conseguiu avaliar de forma estável.


Em concreto, o mercado ainda não tem um preço determinado para os efeitos do “apagão”, para as disputas jurídicas com Isabel dos Santos e Leopoldino do Nascimento e para a controvérsia em torno do diferencial de 570 mil milhões de kwanzas relativo à participação de 36,9% no BFA.



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